domingo, 15 de fevereiro de 2009

Angústia

Escrito em 14/02/09

Ele acordou e se sentiu estranho, tinha todas suas roupas apertadas e rasgadas, sua cama parecia ter diminuído e se sentia desencaixado no mudo que o rodeava. Em vão procurou nas ruas estranguladoras algum ópio que seguraria a dor, procurou pequenos prazeres, um horizonte aberto que permitisse ver as coisas por uma perspectiva mais ampla.


Mas só achou ruelas finas, bairros apertados, becos quase sem céu aonde imperava o silêncio, moradas que não cabiam sua consciência.


Por fim viu o mar, e do outro lado, parecia descortinar outra paisagem que lhe era mais agradável, um lugar comum onde poderia descansar vendo o horizonte.


Nadou e nunca mais foi visto, viu que não era grande como uma montanha ,era tão pequeno quanto o menor dos homens. Desapareceu como desaparece uma gota lançada ao oceano.


A noiva de Areia

Sonhado em início de janeiro de 2008_Escrito 28/01/09



Haviam três chineses na beira de um lago,dois homens e uma mulher no meio deles, todos os três com vestimentas lindamente bordadas, de tons de vermelho, azul e dourado. Na beira do lago havia um muro de madeira que resguardava uma espécie de mirante onde se descortinava a maravilhosa paisagem chinesa, em uma vastidão de lagos, campos e árvores exóticas aos nossos olhos. Parecia crepúsculo, daqueles quando o céu no horizonte parece nascer em tons amarelos e rosados, vai caminhando para o vermelho até que amadurece do azul claro ao azul escuro e chega sobre nossas cabeças onde podemos discernir as primeiras estrelas da noite vindoura.

Mas não havia somente beleza naquele quadro esplêndido, uma tormenta íntima assolava os três personagens, apesar de suas faces serenas, nem tristes nem alegres, mostrando a máxima indiferença incomum a quem namora uma paisagem tão bela quanto aquela que estavam saboreando atrás daquele muro. Acontecia que os dois homens ao lado daquela jovem queriam desposá-la, e ela, apesar de ser mais inclinada a um deles não podia escolher sozinha, tinham que decidir juntos com aquele lago naquela tarde.

A jovem era linda, com um rosto de traços finos, semblante aparentemente despreocupado e estava muito bem arrumada como se aquela fosse uma ocasião extremamente especial. Usava um grande palito no cabelo onde amarrava-o em um penteado que suspendia toda aquela cabeleira longa acima dos ombros, seus trajes eram uma túnica vermelha toda bordada com linhas douradas,apesar de ser uma chinesa de épocas remotas, com um rosto muito pálido, não era nem um pouco parecida com a imagem que fazemos de bonecas de porcelana, nem como um quadro ou uma atriz em um filme, não! Era uma mulher extremamente tangível, real, com um rosto de despreocupação dissimulada que escondia um mar de emoções comuns à qualquer mulher em tais condições como naquele momento decisivo.

Os homens eram como quaisquer homens, impossível dizer como eles eram, vistos que para cada um deles o outro era a mais ignóbil das criaturas, entretanto um parecia mais confiante, provavelmente devido aos sentimentos de sua amada corresponderem mais a ele do que seu oponente, por isso talvez este parecia estar gozando de calma íntima, apesar da leve ansiedade, enquanto o outro estava (quase visivelmente se não fosse o semblante tão sério, austero e inexpressivelmente frio) mergulhado em um profundo caos interior à beira da loucura. No entanto os dois jovens lá estavam, desfrutando da paisagem de fim da tarde, cada um com suas espadas guardadas e com as mãos sobre elas, observando com expressão serena aquele quadro crepuscular.

No momento nada se vê alem de uma pequena ilha que cabem somente duas pessoas em frente ao muro do mirante, poderia ir a pé se assim quisessem pois a água só chegava até suas canelas na travessia, o jovem confiante foi antes, e ali ficou diante do pôr do sol, em seguida ouvimos os barulhos de passos na água, o quadro se fixa para o rosto (quase) apreensivo do rapaz, quando vemos chegar na pequena ilha a jovem chinesa. Os dois ficam um tempo, prostrados um do lado do outro observando juntos o sol se por no horizonte. Até que um barulho de tempestade forte é ouvido ao longe, longe porém cada cada vez mais perto, de um pequeno sopro se torna um silvo assustador até que os dois jovem se viram simultaneamente para a fonte do barulho, a moça sai calmamente daquela ilhota com a mesma expressão fria (quase) demonstrando um medo aterrador, enquanto o rapaz vira para sua amada sem tirar os pés do chão, como se tivessem-nos plantados sobre a areia. Ele se vira, vira, até estar de frente para o mirante quando um imenso redemoinho de areia o cobre inteiramente.

A jovem chinesa está sentada sobre um banco em frente ao mirante, parece atordoada sob forte sono, de olhos fechados e coluna inclinada para frente como uma estátua inerte ela permanece, atrás dela podemos ver seu antigo amado acima da cintura envolvido por forte turbilhão de areia, ele permanece também inerte, mas pela primeira vez com uma expressão clara de grande pavor. O jovem que antes fora rejeitado se senta perto da rapariga, já é dia, ele começa a despi-la e ela permanece desacordada, as próximas horas são marcadas por incessante deleite que o rapaz sente, ao realizar todas suas fantasias com a jovem chinesa, cada vez que ele a pega e a vira, a coloca deitada, a senta, podemos ver o rapaz ao fundo ora com as orbes dos olhos brancos, ora com os olhos fundos e vazios, ora boquiaberto sem os dentes ressecado cheio de moscas em volta de seu corpo moribundo até finalmente tranfigurar-se em um cadáver semi-mumificado. A moça continua adormecida, o redemoinho de areia continua envolvendo o rapaz e a cena se desenrola até a noite.

De repente a jovem acorda, ela abre os olhos lentamente e demora até perceber a cena de horror a sua volta. Ela está nua e com o corpo boiando na água do lago, o lago com o horizonte aberto onde se via campos vastos se tornou um charco rodeado por árvores grossas e retorcidas cheias de cipós caindo de seus galhos até tocarem a água.
A moça grita, grita desesperada chamando um nome em chinês que não poderíamos compreeder, até que em seus berros nadando e se arrastando para trás encosta sua mão em uma cipoal e sente algo áspero e seco, quando se vira vê um rosto mumificado, completamente ressecado em contraste com aquele ambiente pantanoso. Grita de horror ao ver aquela cena, e em seguida passa a gritar mais avidamente quando reconhece naquela cena os resquícios de seu antigo amor, que apesar de ter seu rosto antigo similar, agora jaz em uma múmia envolvida em densa trama de cipós acima d’água com asas de anjo secas e uma espada encravada na asa esquerda. Enquanto a moça grita aos prantos ouvimos uma voz ao fundo que nos diz: Qual o mistério da noiva de areia? Qual é?

Ladrão de Sonhos

Criei esse blog pra tentar desentulhar minha cabeça, a maioria são sonhos que eu tenho, acordo e conto pras pessoas. Alguem me disse que devia escreve-los e estou tentando ver se dá alguma coisa.

Em um dos meus mil sonhos detalhados e estupidamente reais vi um homem de vermelho com a cabeça raspada que gritou comigo "eu te conto as histórias, você conta pras outras pessoas, e não faz nada com elas! Você se orgulha delas mas nem sequer as escreve! Não se orgulhe muleke, nada é fruto da sua cabeça, eu te conto e você repete feito um papagaio rouco, você é um ladrão! Isso que você é, ladrãozinho!" Acordei deprimido porquê os meus sonhos sempre foram algo que me encheram o peito, sinal que meu inconsciente é mais sensível que essa casca dura. Sendo só um sonho doido ou não resolvi dedicar ao homem do sonho o nome do blog.

(nem tudo são sonhos, ouviu homenzinho careca? Algumas coisas eu crio quando estou acordado e esse orgulho você nunca poderá roubar de mim, e os que são sonhos, eu tive trabalho suficiente de escrever! Retire o que disse!)

Acreditem ou não isso não é loucura literária, não inventei isso agora. É tudo a mais pura verdade.

Abraços a todos, sejam felizes.