Um tanque atacava a cidade, na verdade a própria cidade era mais parecida com uma esteira gigante, a dezenas de metros de altura do solo por onde podia se ver o skyline da metrópole com seus prédios altos e padronizados, uma série de caixotes cinzentos todos enfileirados na lateral da grande esteira. A paisagem mais parecia um jogo de Tetris, aonde as peças não tinham cor definida, do que uma cidade. Mas de qualquer forma, um tanque atacava a cidade.
O tanque de cima da esteira, bombardeava os prédios a esmo, percebia-se no céu diversos helicópteros que tentavam neutralizar o tanque com insucesso. Quanto mais atiravam nele, mais o tanque respondia com ferocidade e destruição, destruindo os helicópteros e os prédios em volta em uma cena que muito lembraria um videogame antigo em 2D. Conforme avançamos em nossa cena de destruição e entretenimento, a câmera foca o interior do tanque, quem o pilota é uma Hello kitty com uma faixa vermelha na cabeça, ela parece enfurecida e gira sua cadeira pra lá e pra cá segurando o manche (cursor?) do tanque destruindo tudo que vê pela frente. A câmera volta a enxergar a esteira, conforme o tanque avança e a esteira o move para frente, percebe-se que ao fim dela está um precipício. A escotilha superior do tanque é aberta e entre tiros e sons de helicópteros e do exército inimigo a hello kitty pára o tanque e desce para a esteira gigante correndo. Finalmente ela é conduzida ao fim do abismo aonde a esteira acaba.
Caindo lentamente como uma folha de papel em câmera lenta, a hello kitty grita a uma janela acesa dos prédios que a rodeiam naquele condômino chique de prédios brancos e iguais:
- Ei, lisa, é você? Pode falar comigo por um minuto?
-Espera um pouco, to vendo novela.
-Por favor, não vai demorar.
-Entrou no intervalo, diga querida!
-Desde um tempo que eu me sinto estranha, sinto um vazio, algo que não pode ser preenchido por mais que eu tente, parece que eu desperdicei toda minha vida...
- Deixa de ser boba Natasha! Você tem tudo! É Popular, tem vários amigos! O que mais você quer?
- Num sei, às vezes sinto que...
Plim Plim! Gritava a telinha sinalizando o fim do intervalo, Lisa sai da janela sem se despedir, e derrepente, a câmera lenta se rompe. Como um trovão, Natasha cai ao solo do playground, despedaçada, pedaços da Hellho Kitty se espalham para todos os lados deixando uma imensa mancha vermelha no assoalho de Mármore do Play do condomínio.
Tudo isso eu soube muito depois, naquela época, quando aportei à cidade, tudo era mistério. a muito tempo trabalhava com casos policiais mal-resolvidos, e esse em especial parecia esconder algo interessante, uma hello kitty mimada pega um artefato de destruição, explode tudo á sua volta e depois se mata, ta certo, nada anormal nos dias de hoje, mas mesmo assim, desde que li o jornal não deixei nem por um minuto de me perguntar, por que Natasha se matou? Finalmente, chegava à sua cidade em busca da resposta.
Uma mulher disse que sabia sobre o caso, me deu as instruções para encontrá-la mas agora que estava ali, me sentia confuso. A cidade não era como o que eu conhecia, aparentemente os prédios eram estruturas metálicas que sustentavam esteiras, essas esteiras levavam a mais esteiras, que conduziam a mais esteiras e a mais esteiras indefinidamente. Sobre elas via homens e mulheres, eles sempre empunhando uma maleta, e elas, as vezes vestidas para o trabalho, as vezes com vestidos de gala com longos cachecóis. De qualquer forma, todos eram estáticos como manequins sendo conduzidos pelas esteiras, algumas vezes faziam algum gesto vez ou outro (os homens olhavam muito ao relógio, mas de uma forma tão maquinal que talvez o fizessem somente pela força do hábito). Mal se via o céu, e de onde este era visto, tinha uma tonalidade semi-avermelhada de mormaço, nada que merecia ser visto de fato. Os tons da cidade me assustaram um pouco, o cinza dos prédios das estruturas e das esteiras, variavam muito pouco de tonalidade, como uma luz e sombra de planos diferentes, e isso parecia ditar a forma como as pessoas se vestiam que variavam pouquíssimo do sépia tradicional ao fraque cinza e sapatos pretos, como um filme em preto-e-branco.
Ao fim das esteiras vi uma mulher loira com os cabelos com permanentes parecidos com os filmes noir. Diferente dos outros ela usava um batom vermelho, e mostrava algumas cores disfarçadas em seus acessórios.
- Venha, o caminho é longo e não temos tempo a perder.
Ela me conduziu pelas entranhas da cidade das esteiras, fomos descendo cada vez mais fundo até chegarmos às fundações, parecia-se com um porão de terra batida com todo tipo de tralheira tecnológica antiga. Me surpreendi por perceber que as fundações de ferro eram vermelhas, e a quantidade de cores que o porão abrigava dos olhos da cidade.
- Tudo sobe Natasha você vai encontrar aqui, conheço bem sua história. – disse minha guia-
- Você vai me contar?
- Só o que você precisa saber.
-Continue
- Tudo começa aqui:
Ao falar isso, retirou um pano empoeirado de um objeto cubóide. Percebo uma espécie de caixa imensa com uma tela de vidro quadrada em sua frente, ela parecia ter alguns enfeites como o que colocamos nos chapéis ou em fantasias, ou como oferendas que os antigos ofertavam aos seus deuses, mas estes apretechos estavam tão velhos que foi impossível identificá-los. A mulher misteriosa operou o estranho aparelho e da tela pude perceber uma imagem primitiva e pixelada se formando em cores, extasiado sentei no chão de barro e me deixei absorver pelo aparelho.
Parecia que eu estava lá, a muitas décadas atrás com as pessoas usando roupas engraçadas e espalhafatosas, estávamos na praça, que parecia ser bem aqui, neste exato lugar do porão. Havia na época anterior às esteiras, prédios mais baixos e mais bonitos, eu e Natasha estávamos lado a lado assistindo o que parecia ser o maior espetáculo de nossas vidas.
- Vejam a inauguração de nossa rádio, a magnífica invenção do doutor que irá sacudir a cidade – falava em alto volume uma voz que eu não sabia exatamente de onde vinha- pessoas das mais distintas camadas da sociedade estarão presentes- completava a voz animado do locutor seguido de uma musiquinha Jingle qualquer-
Vi então, como um quadro em movimento que identificava cada um dos personagens retratado. O prefeito vestindo um terno e arrumando os cabelos de sua quase careca, o banqueiro que usava uma cartola e fumava um daqueles charutos cubanos e outros alguens-sei-lá-quem, me chamou atenção a famosa atriz, que não sei se era famosa na época, posando para os fotógrafos com uma enorme pluma vermelha no cabelo, como era graciosa! Tirou a pena num gesto teatral e colocou sobre o grande aparelho, parecendo sacralizá-lo de alguma forma. Imediatamente os outros personagens também davam cada um sua oferenda antes do prefeito pegar aquela gigantesca tesoura e cortar a faixa vermelha. Quase todos aplaudiram até a primeira imagem surgir na tela arrancando espantos e aplausos até dos mais desanimados, como todos pareciam felizes! Mas não deu muito tempo do meu êxtase e a mulher que me acompanhava desligou o aparelho, me fazendo voltar para aquela lama onde tinha me sentado sem perceber.
- E depois? O que aconteceu?
Andando vagarosamente, só pude ouvir o barulho de seu salto alto enquanto acendia um cigarro de forma vagarosa e sensual. Olhou ao longe saudosista, a imagem no plano era focada em seu belo olhar distante fitando um horizonte além da câmera, e recomeçou a falar
- Depois daquilo, Natasha adquiriu um novo sentido de vida, veio a TV a cabo, o ICQ, o MSN, mas tudo isso era um prelúdio, tudo mudou quando veio o Orkut, o Orkut de Natasha!
este sonho foi o primeiro sonho literário que tive na vida! O sonhei em 2006 e tenho muito apreço por esse conto inconsciente inacabado. Na época contava para todos os meus amigos a história inventada nas minhas horas de sono e todos se riam muito dizendo sempre que deveria escrever meus sonhos. Infelizmente escrevi só 3 anos depois de ter sonhado e muita coisa se perdeu... Que merda terem me acordado! Foi uma das maiores frustrações da minha vida não terem nunca me contado o final
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