sábado, 25 de setembro de 2010

Opereta Boliviana em 4 Movimentos

Em todo o “filme” músicas lindas tocam, a trilha sonora é minimalista (como algo do philip glass), são repetitivas, quase sempre instrumentais insistindo em uma ou duas notas de teclado, as vezes tensas, as vezes crescentes e excitantes, as vezes estupidamente felizes.


ESCENA UNO: PEDAZOS

Estava andando na “escola” muito rápido, não sei na verdade se estava andando sobre uma esteira ligeira, ou estava sendo carregado por uma maca. O longo corredor daquela escola tinha uma luz diáfana de igreja, daquelas que inundam um ambiente mas continua o deixando em uma semi-penumbra. As paredes, janelas e esquadrias eram pintadas de vermelho e azul e após passar por esse corredor cheguei até a última sala, nela entrei, a luz obscura continuava e lá vi incontáveis cadeiras vazias. Um vazio inundava a sala, um vazio profundo e desconfortável.

Fui caminhando até o fundo, cada passo gerava um eco interminável. Na parede final vi um semicírculo de cadeiras com várias pessoas de costas. Logo me aproximando reconheci que lá estavam vários amigos do peito. Meus amigos de infância, meus amigos do antigo CA, meus amigos da sala da faculdade, todos estavam lá, quando me aproximei do centro do círculo e chamei um pelo nome percebi que cada um deles carregava um pedaço de mim (um tinha o meu nariz, outro meu cabelo, outro um olho com meus óculos e etc, somado aos seus rostos) e estavam portando tesouras, queriam cortar e pegar os pedaços que faltavam. Levantaram-se e se aproximaram de mim, cortando laços invisíveis no ar que os davam cada vez mais pedaços de mim que flutuavam pela sala, quanto mais se aproximavam, mais parecidos comigo ficavam. Eu fiquei assustado (não pelos pedaços que me eram tirados, mas pela pergunta que se anunciou em minha mente) Em um close final em minha cara assustada, via-se no reflexo dos óculos vários Tiagos idênticos, a música começava a ficar tensa se elevando em tons apoteóticos, quando finalmente abri a boca para perguntar (a cada palavra o close se amplia para o reflexo do óculos, uma nota da ópera toca, e vai fechando a cena) me vi repetido por um milhão de vozes em um coro uníssono dizendo ao mesmo tempo:

-QUEM

- SOU

- EU?

ESCENA DOS: QUEM SOY YO?

- NÃÃÃÃÃO!!! QUEM SOU EU? QUEM SOU EU? QUEM SOU EU???

Berrava como uma criança que havia sido despertada de um pesadelo, quando percebi que tinha sido um sonho e que só havia minha voz sem nenhum eco, soltei no ar uma perguntar para ver se não era repetida por ninguém mesmo:

- Quem soy yo?

Ao perceber que estava realmente sozinho, me levantei e me pus a caminhar.

Reparei que do meu lado só havia meu irmão, andávamos por uma rua deserta, parecia o Centro de São Paulo em um domingo, só sabia que tínhamos que comprar coisas pra viajem, e que todas as lojas estavam fechadas.

A cena lateral só permitia ver um plano de fundo na rua, quase como se estivéssemos andando em 2D e as fachadas dos prédios andassem com nosso passo e a paisagem ia sendo trocada, nós estávamos sempre centrados na câmera. A cor predominante era Ocre, a rua era cheia daquelas imensas aberturas feias de portas metálicas de lojas fechadas. Muitas estavam pichadas e grafitadas (e eram a única coisa colorida a saltar os olhos). Uma poeira espessa (perecida com areia) era levantada pelo vento, que ocasionalmente também levantava uma sacola ou carregava uma latinha, que naquela rua vazia, produzia a mesma sensação daquelas moitas em filmes de faroeste, que passam só pra lembrar que se está completamente só.

Andamos pela rua até achar uma loja semi-aberta, pela nuance da silhueta, a lojista no escuro era uma mulher. No entanto por um motivo só um podia entrar. Enquanto pensava como resolver o impasse Gabriel, meu irmão, entrou pela porta sem perguntar me deixando muito puto.

-Gabriel!

-Quê vei?

Percebendo o absurdo da minha pergunta, quase fiquei calado, mas disse:

-Por favor, pergunta pra ela quem eu realmente sou.

-Tá!

Ficou muito tempo lá dentro, saiu com nossos dois mochilões carregados, entregou o meu e carregava uma outra coisa grande. Ansioso perguntei:

-E aí? Quê que ela respondeu?

-Pow cara, esqueci de perguntar, foi mal! Mas ela te mandou entregar isso:

Me deu uma espécie de perna de pau, tinha uma pra ele também, ele tentou e logo desistiu de subir. Eu subi nela com dificuldade, e percebi feliz o quanto estava com força e equilíbrio sobre-normal. Quando cheguei acima percebi que todos aqueles eus estavam reunidos em mim agora, finalmente eu era um só!

Vi o Gabriel correndo sem as pernas de pau lá na frente, tentei correr para alcança-lo, mas estava muito desajeitado com aquelas pernas.

-corre!- Gritou meu irmão

Em pouco tempo aprendi a me controlar e correr com as pernas de pau. Corremos até pularmos na caçamba de uma pick-up.

- Viu! Consegui uma carona véi! – Disse meu irmão

-Pow muleke! As vezes cê corre hein?

-É cara, as vezes eu corro mesmo...

A pick-up arrancou e a câmera permanece estática, pela rua empoeirada ela segue e vai ficando cada vez menor, e menor, até virar somente um ponto prateado um ponto no horizonte.

ESCENA TRES: OBSERVANDO LA MAREA

Chegamos a uma praia linda ainda tranqüila. Acima de parte da praia haviam casas de madeira sobre pilares toda em tábuas de madeira espaçadas, varandas e decks a conectando uma na outra. Subimos em uma delas juntos, todas os brasileiros companheiros de viajem que encontramos em nosso caminho[1]. A comitiva foi caminhando entre os decks, de casa em casa. De lá víamos colinas estranhas, pareciam mais recortes de papel de um cenário teatral improvisado. Alguém me disse que elas eram os pedaços dos 5 continentes, e que estávamos ilhados na América do Sul, pois era impossível passar pro outro lado dos recortes.

Passando de casa em casa, estacionamos em uma cansados, a casa tinha um só cômodo, se via o que estava abaixo dela pelas tábuas espaçadas, nesse cômodo várias camas estavam espalhadas e cada um se jogou nelas com seus mochilões exaustos. Fui à varanda e começou a ventar muito forte, lá vi clara que olhava com fulgor e certa atração pelas ondas altas que começavam a se formar, fitando-as com interesse por sua força telúrica. Rapidamente a ventania virou uma tempestade.

Percebi com o mau tempo que existiam duas classes de mochileiros, os que andavam pelas casas e decks de madeira, e os que andavam sobre a areia. Estava apreensivo e queria muito saber o que acontecia com os andarilhos da areia, percebi eu um hippie jogava flores e sementes na água enquanto entoava uma canção religiosa. Outros se jogavam nas ondas gigantes, uns voltavam para a areia gritando de adrenalina, enquanto outros se deixavam calmamente serem levados pelas ondas sem transtorno algum. Intrigado quis saber onde meu amigo mochileiro de pés descalços[2] se encaixava e comecei a procurá-lo, me debrucei sobre o guarda-corpo da varanda e não o via em lugar nenhum, só depois de procurar nas frestas da tábuas da varanda que o vi caminhando próximo das paredes das casas de madeira. Caminhava sob a proteção do teto da varanda, mas sem sapatos pisava diretamente sobre a areia, ria toda vez que uma das ondas o molhava.

ESCENA CUATRO: “RE – DES - TRANSFIGURACIÓN”

Me vi empacotado, etiquetado e andando com dificuldade. Logo me puseram na caçamba de um carro de correio gigante que mais parecia uma fábrica. (a mesma filmagem lateral da rua se repetia, com um só plano de fundo buscando o 2D, mas dessa vez a câmera ficava parada enquanto o personagem é o que se move e o plano de fundo fica parado) Conforme as esteiras corriam comigo deitado, via prensas transformarem primeiro meus pés, depois minha perna, meu tronco e por fim minha cabeça, em algo cubóide. Depois me dobraram pela cintura até eu ficar no formato de uma caixa grande, rapidamente após o processo me encheram de etiquetas e adesivos informativos. (a câmera muda, e agora não respeita a nenhuma ordem) no fim da esteira um empregado uniformizado me pega e leva ao destino remetente.

O estranho é que me transportam de um canto ao outro de um imenso galpão em uma confusão de pessoas, máquinas, carros e robôs passando, a câmera tenta acompanhar mas não tem velocidade suficiente.

Aos poucos o que era antes um carro de bagagem de aeroporto que me carregava foi mudando de troca em troca de uniformizado, de dobra em dobra, de recipiente em recipiente, me transformaram em um pequeno cubo e puseram dentro do que parecia um penico. Até esse ponto a câmera mal consegue achar os personagens principais mais.

A entrega é feita, vê-se uma luva preta assinando algum formulário e rapidamente a cena muda para o quarto.

Jogam a minha caixa-pessoa junto com meu mochilão na cama de meu quarto, e então, em meu auto “desempacotamento” eu presencio na câmera que me observa uma espécie de novo nascimento.[3] Vou me desdobrando, me desempacotando, minhas mãos vão ficando maiores e rompendo os lacres, uma gosma estranha acompanha meus movimentos (parecia mais com um pintinho saindo de um ovo) Vou crescendo, crescendo, e as vezes balbuciando e falando coisas estranhas como um bebê grande. No fim fico grande mas continuo meio quadrado, me agarro à minha mochila com muito amor e saudade, e procuro as lembrancinhas de viajem que guardei dentro com meus movimentos lentos e limitados.

O que se sucede é acompanhado por uma música terna muito bonita, parece música clássica. Vou me desdobrando, me desempacotando, minhas mãos vão ficando maiores e rompendo os lacres, uma gosma estranha acompanha prende meus membros que se começam a recuperar seus movimentos lentamente (pareço mais um pintinho saindo de um ovo) Vou crescendo, crescendo, e as vezes balbuciando e falando coisas estranhas como um bebê grande. No fim fico grande mas continuo meio quadrado, me agarro à minha mochila com muito amor e saudade, e procuro as lembranças de viajem que guardei dentro com meus movimentos lentos e limitados.

Renasci finalmente depois daquela viajem, mas menos livre do que era antes, pois na re-des-transfiguração da volta, me tornei menor e quadrado.



[1] (João, André, Cláudio, Clara, Carina, Guilherme e meu irmão que já estava comigo)

[2] O mochileiro foi quem me ajudou na viajem me emprestando equipamento. Se chama Gustavo “Stone”.

[3] Nesta cena, uma música bela toca, como que o som de uma enunciação, uma exaltação, música clássica bem terna e comovente.

1 comentários:

  1. Se chama opereta porquê a linguagem era meio que de uma opera mesmo na forma como as cenas eram acompanhadas pela música. As quatro cenas eram bem marcadas, acompanhadas de um certo espaço de espera para continuarem, e o engraçado é que mudou o cenário, tem-se um capítulo, como um teatro mesmo.
    Tive esse sonho durante um mochilão que fiz na Bolívia em Fevereiro de 2010. Foi o único sonho que me lembrei em todo um mês e meio de viajem.

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